Charles Chaplin

O que ficou da inestimável obra do artista mais popular do século XX

O fim da estrada: transformado em senhor de castelo, o eterno vagabundo repousa em Corsier-sur-Vevey @ Roy Export Co Est

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Um imenso, algo fúnebre, aviso, gravado em bronze, pairava sobre a cabeça dos visitantes que acorreram ao castelo de Corsier-sur-Vevey, na Suíça, desde as primeiras horas da manhã do domingo de Natal: “Tempestade à vista”. Era o aviso de tempo ruim colocado pelos empregados do castelo do século XVIII, branco e rodeado de árvores centenárias, onde nos últimos 25 anos Sir Charles Spencer Chaplin e sua mulher, Oona, viveram longe de tudo – e onde ele morreria na paz do sono que se seguiu à ceia da noite de festa. Debaixo do mau tempo daquele e do dia seguinte, quando Chaplin seria sepultado em cerimônia simples, segundo a última de suas vontades, brotaram nas páginas de todos os jornais do mundo os mais impressionantes obituários já dedicados neste século a um artista.

Do outro lado da Terra, onde há pelo menos três décadas não se exibe nenhum dos filmes do ilustre desaparecido, o Diário do Povo, de Pequim, escreveu: “Era um progressista que os reacionários perseguiram”. A Rádio Vaticano lembrou que Chaplin dedicara toda a sua vida aos valores do espírito, à paz entre os homens. E nos Estados Unidos, onde durante trinta anos ele rodou 75 dos 79 filmes da sua carreira, a morte de Chaplin foi sentida como a derradeira pá de cal da legendária geração de pioneiros que pessoalmente construíram a maior fábrica de sonhos de que se tem notícia, Hollywood.

Entre o repicar dos sinos e os réquiens recitados por artistas, estadistas, chefes de governo, gente da rua, jamais faltou a palavra com que Chaplin se acostumou a viver, quase como se ela fosse seu próprio sobrenome: “Gênio”. Durante meio século, e no mundo todo, os cérebros mais bem-dotados igualaram-se às massas mais despreparadas na admiração pelo homem franzino de bigode ridículo, sapatos largos demais, cartola amassada, bengala, o Charlot dos franceses, o Carlitos dos brasileiros, eternamente igual a si mesmo e parecido com todos os homens.

Mestre da ilusão cinematográfica, o palhaço Chaplin erigiu seu mundo com graça, poesia, sátira e bondade ao mesmo tempo que misturava a técnica de uma arte milenar, a do circo, com os primeiros vagidos do que seria a linguagem por excelência do século XX, o cinema. Ele retratou o homem comum na realidade da sua vida, maltratado em casa pela mulher e humilhado no trabalho pelo chefe, traído pela amante e ridicularizado pelos amigos, sufocado no ônibus, atropelado na rua. Para mostrar tudo isso, o comediante franzino precisou de mais talento que o simples mímico, mais agilidade que o mero palhaço, mais inspiração que o artista comum. Ele foi escritor, musicou vários dos seus filmes, escreveu poesias, pintou quadros, filosofou.

Melancolia: Chaplin e o olhar eternizado © Reprodução

“Não importa que tenha feito tudo isso como um grande amador”, escreveu o brilhante crítico francês André Bazin. “O que vale são suas relações com a arte do nosso tempo, o cinema.”

Essas relações duraram de 1914, ano de Carlitos repórter, a 1967, quando se despediu, de maneira algo melancólica, dirigindo Marlon Brando e Sophia Loren em A condessa de Hong Kong. Brilhando no centro da inspirada e ainda hoje espantosa geração de cômicos americanos dos anos 1920 (Buster Keaton, Harold Lloyd, Ben Turpin, Mack Sennett, para ficar só nos principais), Chaplin entrou nos anos 1930 sem entender, e quase sem aceitar, que a maravilhosa máquina de filmar que ele tão bem manipulava tivesse dali para a frente a obrigação de também falar através do som.

Com isso, embora dois dos seus melhores e mais cáusticos trabalhos de sátira, Tempos modernos e O grande ditador, tenham sido feitos em tempos sonoros (respectivamente em 1936 e 1940), a produção de Chaplin diminuiu brutalmente em quantidade – e consequentemente sua influência nos destinos do cinema também encolheu. As periódicas revoluções por que passa a sétima arte fizeram-se sem o seu concurso: não há nada de Chaplin na de 1940 (Cidadão Kane, de Orson Welles), muito pouco na segunda (o neorrealismo italiano, a partir de 1945), nenhum vestígio na terceira (a de Michelangelo Antonioni e Alain Resnais), nem na quarta (a de Jean-Luc Godard, nos anos 1960). Embora adorado pelos comediantes do momento, como Mel Brooks e Woody Allen, ele não é tomado nem como modelo nem como referência. Sua herança parece mais difusa, quase imperceptível.

Nos últimos trinta anos, desde Monsieur Verdoux, de 1947, em que a figura do velho palhaço desapareceu da tela para sempre, ele rodaria apenas mais três filmes – e entre estes Um rei em Nova York, de 1957, sua única obra afetada pela falta de humor. Nesse filme Chaplin tentou ajustar contas com os Estados Unidos, de onde saíra em 1952 por pressões da então poderosa Comissão de Atividades Antiamericanas. Surpreendido a bordo de um navio rumo a Nova York pela notícia de que estava oficialmente “sob suspeita”, mandou um telegrama ao secretário da Justiça dos Estados Unidos, James P. McGranery: “Não sou comunista. Jamais na minha vida aderi a qualquer partido político. Sou o que o senhor chamaria de mercador da paz. Espero não tê-lo ofendido”. Mas ofendeu. “Na minha opinião”, respondeu o secretário, “ele faz pronunciamentos que indicam sua atitude de desdém para com o país cuja hospitalidade o enriqueceu.”

Em seguida, ordenou que a polícia prendesse Chaplin assim que o navio aportasse em Nova York. Chaplin não foi a terra. Rumou para a Inglaterra, de onde mandou outra mensagem a McGranery: “Não penso que se deva dividir as pessoas segundo suas opiniões. Isso conduz ao fascismo. Creio na liberdade. Essta é a minha política”. De Londres ele seguiu para a Suíça com a mulher, Oona, filha do teatrólogo Eugene O’Neill, e seus cinco filhos, e de lá não se mudaria. O mais popular artista do mundo protagonizava, assim, o surpreendente papel de vítima nesse episódio clássico de xenofobia: Chaplin recusou-se, sempre, a adotar a nacionalidade americana. Preferiu até o fim a condição de cidadão da Grã-Bretanha, onde nasceu.

Teria sido Chaplin um comunista? O ilusionista-mor teria aperfeiçoado sua técnica a ponto de enganar tantos milhões de bons americanos e por isso merecer o título de “Pierrô Vermelho”, que lhe foi dado pela hoje defunta revista Saturday Evening Post? Alguns mistérios da vida de Chaplin, de resto, jamais foram perfeitamente revelados – a partir do próprio ano em que nasceu, 1889, a 16 de abril, “quatro dias antes de Hitler”, como ele mesmo gostava de lembrar. Minuciosos historiadores vasculharam os cartórios de Londres, onde Chaplin nasceu, e não encontraram seu registro em nenhum deles, embora confirmassem que ele era filho de um alcoólatra e uma cantora de cabaré.

Milionário antes dos 30 anos, ele continuou levando uma vida relativamente modesta, evitando os luxos dos casarões com piscina em Hollywood e preferindo sempre hotéis discretos.

Segundo um desses historiadores, Theodore Huff, o nome Chaplin não seria mais que a “arianização” do nome judeu “Kaplan” (e provou que a mãe de Chaplin era judia e irlandesa). “Eu não sou judeu”, explicou ele em 1940, quando as tropas de Hitler ocupavam a Europa e o próprio Führer era a sua personagem em O grande ditador. Mas em 1946, acabada a guerra, ele retificava: “Dizem que eu sou meio judeu e é verdade, eu nunca neguei”. Além disso, no começo dos anos 1940 participou de espetáculos para angariar fundos destinados à então devastada frente soviética da guerra, atitude que dez anos depois alimentaria o seu perfil de “suspeito”.

As vítimas mais atingidas pelas perseguições dos anos 1950, porém, jamais diriam que Chaplin fosse sequer um simpatizante. Um deles, o roteirista Alvah Bessie, que passou anos proibido de entrar nos estúdios, contou que ofereceu a Chaplin um projeto tentador para ele financiar: um filme sobre Don Quixote, com o próprio Chaplin como Sancho Pança e Walter Huston no papel-título. “Eles me crucificarão!”, horrorizou-se Chaplin.

Diante da constrangida discordância de Bessie, Chaplin saiu apressadamente do encontro, não sem antes apertar a mão do roteirista – e nela deixar uma nota de 100 dólares. “Não deve ter sido uma atitude fácil para ele”, comentou Lita Grey, com quem Chaplin esteve casado entre 1924 e 1927 (a primeira mulher foi Mildred Harris, de 1918 a 1920; e a terceira, Paulette Goddard, entre 1933 e 1942) e mãe de seus dois primeiros filhos, Sidney (hoje com 51 anos) e Charles (que se suicidou em 1968, aos 43 anos). Ela se referia, ressentidamente, à alegada sovinice do ex-marido, ao seu caráter autoritário com as mulheres, a seu don-juanismo escandaloso e que só teve fim com o casamento com Oona, quando ela estava com 17 anos e ele com 54.

A fortuna material de Chaplin, de resto, embora imensa, parece muitos pontos abaixo da sua herança artística. Sua chave está na linha final que aparece em todos os seus filmes, mas que poucos espectadores notam: “Copyright Roy Export”. A Roy Export pertencia a Chaplin e controla todos os seus filmes, desde A corrida do ouro, de 1925, que rendeu à United Artists a fábula de 6 milhões de dólares – e Chaplin era um dos donos da United, que ele fundara com Douglas Fairbanks, Mary Pickford e o legendário D. W. Griffith, “o pai do cinema”, na opinião de muitos. E, mesmo antes de ser dono de estúdio ou empresa, Chaplin já inflacionava o mercado com seus salários: foi o primeiro artista de 1 milhão de dólares, ainda nos anos 1920.

De volta à América, em 1972: Oscar de uma nação envergonhada ©AP

O poder da Roy Export sobre a obra de Chaplin é tão amplo que em 1960 o National Film Theatre, de Londres, teve que cancelar o projeto de um festival de Chaplin por não ter chegado a um acordo sobre o preço. Ele foi um milionário prudente, que calculava tudo e que sempre se orgulhou de gerir bem os negócios (gostava de dizer que dividia os 150 dólares semanais do seu primeiro salário em Hollywood, na companhia de Mack Sennett, em proporções desiguais – 25 para sobrevivência e 125 para poupança).

Milionário antes dos 30 anos e sem jamais descer dessa categoria, ele continuou levando uma vida relativamente modesta, evitando os luxos dos casarões com piscina em Hollywood e preferindo sempre hotéis discretos. “E por que não?”, ressentiu-se de novo Lita Grey. “Em casa quem paga as festas é o dono. Nos hotéis, as contas podem ser mandadas para o estúdio, como despesa empresarial.”

Foi através do dinheiro – mais exatamente, de um cheque de 500 mil dólares ao Tesouro americano, em 1968 – que Chaplin decidiu solucionar velhas pendências fiscais e começar o degelo das suas relações com os Estados Unidos. Para alívio geral de toda a nação, anunciou-se logo depois que a lista de “suspeitos” havia muito fora arquivada, que a América esperava de braços abertos o seu maior artista popular e que até mesmo a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas preparava para Chaplin um Oscar especial (ao todo, ele conseguiria três, um para Monsieur Verdoux e outro pela música de Luzes da ribalta, um número que em nada expressaria o peso da obra do homenageado, caso o Oscar expressasse muita coisa).

Em 1972, finalmente, Chaplin chegou aos Estados Unidos, aclamado pelo povo e saudado pelos jornais. “Ainda bem que ele veio”, escreveu em editorial o New York Times no dia seguinte à cerimônia em que o velho Chaplin se emocionara ao ganhar a sua estatueta. “Se uma nação pudesse enrubescer coletivamente, e além disso amargar para sempre um sentimento de culpa, essa nação seria a nossa.”

O resto da história já era, a essa altura, uma lenda. Quarenta e cinco livros haviam sido escritos sobre sua obra – não havia mais dúvida de que o ermitão de Corsier-sur-Vevey era o Shakespeare da tela.

Foi uma reconciliação sem dúvida curiosa. Um conhecido magnata do cinema, então com 88 anos, olhou seu velho amigo de 82 e não se conteve diante dos repórteres: “Meu Deus, como ele envelheceu!”. Acabada a festa, Chaplin retirou-se para seu refúgio suíço. Em 1975, finalmente, especialmente chamado para outra honraria, viajou a sua cidade natal, Londres, onde vivera uma infância miserável, para receber da rainha Elizabeth a sua sagração como Sir.

O resto da história já era, a essa altura, uma lenda. Quarenta e cinco livros haviam sido escritos sobre sua obra – não havia mais dúvida de que o ermitão de Corsier-sur-Vevey era o Shakespeare da tela e um mito vivo e ainda com as ideias fervilhantes. Às pouquíssimas pessoas que tinham acesso a sua fortaleza de 400 mil metros quadrados, ornada de tulipas multicoloridas e perto de um lago eternamente calmo, ele contava que planejava novos filmes, escrevia a partitura de suas obras mais velhas e impunha a todos os que moravam ou trabalhavam nas 22 peças do castelo o seu ritmo pessoal de vida.

Os horários ali, nesses últimos 25 anos, seguiam a rotina de um quartel: exercícios matinais para ativar a circulação sanguínea de Sir Charles, almoço ao meio-dia e meia, sesta e passeios pelas alamedas do castelo, coquetéis leves (um martíni seco, algum licor) por volta das seis da tarde e jantar em seguida. Naquela atmosfera, repararam os visitantes, Chaplin parecia realmente ter encontrado a felicidade em família, que ele descrevera em seu livro de memórias e que julgava uma quimera até conhecer Oona.

O habitualmente reservado, pouco expansivo, Chaplin tornava-se, quando a noite caía, inatingível por qualquer pessoa. Depois do jantar, o homem que Federico Fellini chamou de “o Adão de todos nós”, que Jacques Tati imitou, que Jerry Lewis reverenciou e que os simples mortais adoraram durante três gerações levantava-se da mesa e seguia para a sala de estar. Estava, invariavelmente, com um terno bem talhado, a barba bem-feita, os olhos atentos à tela da televisão. E ali, todas as noites, vendo filmes, ele adormecia.