Ney, homem de palco, acerta o tom no esfuziante espanholado de Bandolero @Divulgação

À beira dos 40

Erasmo na esquina, Ney em pelo, Caetano no colo

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É humano, além de justo, que cada artista procure sua própria paz. Erasmo Carlos, de 37 anos, Caetano Veloso, de 36, e Ney Matogrosso, de 37, chegaram a esse porto exatamente como se mostram na capa de seus novos discos: Erasmo perambulando pelas esquinas de uma Ipanema poluída, Caetano no colo da mãe, Ney totalmente nu. Portanto era também humano, e igualmente justo, que as esperanças com os novos trabalhos dessas três estrelas de uma mesma geração mas habitando mundos opostos subissem aos céus. Mas a paz, desconfia-se, não é íntima das musas. E, nestes mornos dias de inverno, os sons produzidos pelos três desabam como uma tempestade em copo de água, um convite à preguiça e ao sono.

Erasmo, velho roqueiro, dá a impressão de ter entregado os pontos: mesmo sua indignação contra o massacre do meio ambiente é incapaz de tirar de seu disco a sensação de que se trata de boa música apenas para ouvir em FM de madrugada. Caetano, poderosa voz de esquecidas vanguardas, parece estar num impasse, além de andar triste, muito triste: seu disco é tão desigual que abriga ao mesmo tempo alguns dos melhores e dos piores versos do ano. E Ney, homem mais de palco, acertou de vez com o disco. Como fala pelos outros, pois é só cantor, o desnudamento de Ney acaba lhe dando uma boa distância sobre os outros dois.

Promessas e falsetes

Não é por coincidência, portanto, que os arranjos e a direção musical sejam os melhores dos três discos, no esfuziante espanholado de Bandolero ou na imbatível euforia de recriação de Não existe pecado ao sul do equador. Renunciando quase totalmente ao seu falsete, Ney consegue ainda ser um grave e solene cantor em Mal necessário, de Mauro Kwitko, em que sussurra, talvez falando até de si mesmo: “Sou o que não tem tempo/ O que sempre esteve vivo/ Mas nem sempre atento”.

Já Erasmo Carlos vibra em outro ritmo – fez rock-pauleira enquanto deu e jamais desceu ao lirismo rastejante de seu irmão xifópago de trabalho, Roberto Carlos. Aqui, ainda juntos na maioria das músicas, eles chegam a prometer algo em Panorama ecológico, quando a voz aberta de Erasmo, quase lembrando Chico Buarque, anuncia que “Lá vem a temporada de flores/ Trazendo begônias aflitas/ Petúnias cansadas/ Rosas malditas”. Mas esses versos desmoronam rápido, sob o peso de “prímulas despetaladas” e “sanhaços morgados”. E na sua mesmice de coros, metais e cadenciamento leve, Erasmo jamais ultrapassa o que é proibido: “Respeito motocicletas/ Reduzo a tara/ Vento na cara” (Favelas e motéis).

Palavras, em suma, que estão muito perto das do Caetano de agora: “Quero comer, quero mamar, quero preguiça, quero querer, quero sonhar, felicidade”, diz em Tempo de estio aquele que é um dos dois maiores letristas de nossa música (o outro continua em cartaz, mas no palco, com a Ópera do malandro). Com seu irmão gêmeo de trabalho, Gilberto Gil, ele verseja em São João, Xangô menino: “Olha pro céu, meu amor/ Veja como ele está lindo”. E, como se não bastasse cantar má poesia de sua própria autoria, Caetano ainda endossa, como sempre endossou, a versalhada e a cacofonia de Jorge Ben em Quem cochicha o rabo espicha: “Não fique esperando o que Jesus prometeu/ Porque ele também está esperando que você tome vergonha na cara”.

Luz nas trevas

No entanto, mesmo nesse disco em que tudo parece durar uma eternidade a mais, refulge de vez em quando uma das grandes armas de Caetano – a capacidade de surpreender. Em Eu te amo, acompanhado ao piano, revela-se um excelente cantor de boate, apesar da intromissão das palavras “azeviche” e “jabuticaba”. Em Sampa, talvez a música mais bonita gravada este ano no Brasil, ele constrói uma poesia sentida e superior ao falar do que se passa em seu coração ao cruzar a avenida Ipiranga com a avenida São João: “É que quando eu cheguei aqui eu nada entendi/ Da dura poesia concreta de tuas esquinas/ Da deselegância discreta/ De tuas meninas”. Com violões à Paulo Vanzolini acompanhando sua perambulação por São Paulo, Caetano concentra e até esbanja aqui tudo aquilo que faz falta ao resto do disco. É raro nestes dias ouvir alguém falar tão bem do “povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas, da força da grana/ Que ergue e destrói coisas belas/ Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas”, em suma, de uma cidade que é “o avesso do avesso do avesso do avesso”. Um pouco como o próprio Caetano, que, mesmo protegido no regaço da mãe e até nos momentos piores, ainda brilha e inquieto seria ele, a esta altura da vida e da carreira, ainda um objeto não identificado?